Dor Silenciosa: O que os donos não veem
Especialistas revelam como identificar e tratar infecções de ouvido em cães e gatos antes que causem danos irreversíveis
Quando um cão começa a balançar a cabeça excessivamente ou um gato passa a coçar as orelhas com mais frequência, muitos tutores interpretam como um incômodo passageiro. No entanto, especialistas alertam: estes podem ser os primeiros sinais de um problema que afeta até 20% dos cães em todo o mundo e que, se negligenciado, pode evoluir para condições graves como perda auditiva, paralisia facial e problemas neurológicos permanentes .
A otite externa — inflamação do canal auditivo externo — é uma das principais razões para consultas veterinárias em pequenos animais. No Brasil, com o clima tropical, os índices podem ser ainda mais elevados do que a média global de 5 a 20%, chegando a 30-40% em regiões quentes e úmidas . O problema, contudo, não se limita à superfície. Quando a infecção ultrapassa a barreira do tímpano e atinge o ouvido médio ou interno, o quadro se torna grave, exigindo intervenções cirúrgicas e deixando sequelas.
A seguir, reunimos as orientações de manuais de referência em veterinária e estudos recentes sobre como identificar, tratar e prevenir essas dores que, muitas vezes, passam despercebidas pelos tutores.
O Inimigo Invisível: Da Coceira à Paralisia
A anatomia do ouvido dos pets é traiçoeira. O que começa como uma simples coceira — causada por ácaros (como o Otodectes cynotis), alergias alimentares ou acúmulo de cera — pode rapidamente se transformar em um ambiente propício para bactérias e leveduras .
De acordo com o Manual Veterinário MSD, a principal via de acesso para a otite média (ouvido médio) é justamente a otite externa crônica não tratada. Estudos mostram que cerca de 50% dos cães com otite externa crônica também apresentam otite média, muitas vezes assintomática .
O perigo reside na proximidade com nervos cruciais. “Diferente de uma simples infecção de ouvido, a otite média pode afetar o nervo facial e as fibras simpáticas”, explicam os especialistas do MSD. Isso se traduz em sinais clínicos graves que nenhum tutor gostaria de ver:
Síndrome de Horner: Olho fundo (enoftalmia), pálpebra caída (ptose) e pupila contraída (miose).
Paralisia do nervo facial: Desvio do lábio ou do focinho, impossibilidade de piscar.
Ceratoconjuntivite seca: Olho seco devido ao comprometimento do nervo responsável pela lubrificação .
Em casos de otite interna, o sistema vestibular é atacado. O animal passa a andar em círculos, inclinar a cabeça para o lado afetado e apresentar nistagmo (movimentos rápidos e involuntários dos olhos), sintomas que muitos confundem com AVC .
Diagnóstico: O Desafio da Membrana Íntegra
Um dos maiores desafios apontados pelos veterinários é que o tímpano de um animal com otite média pode parecer completamente normal durante uma otoscopia de rotina. “O diagnóstico da otite média pode ser difícil, porque a membrana timpânica pode estar intacta e com aparência normal”, alerta a literatura veterinária .
Para um diagnóstico preciso, muitas vezes é necessária a video-otoscopia ou exames de imagem avançados, como Tomografia Computadorizada (TC) ou Ressonância Magnética (RM) . Esses exames são capazes de visualizar a presença de líquido ou tecido inflamatório dentro da bula timpânica (o osso que abriga o ouvido médio), algo invisível em exames clínicos comuns .
Tratamento Baseado em Evidências: Muito Além do Gotinha Caseira
A era de sair correndo para colocar “remédio de farmácia humana” ou azeite no ouvido do pet está com os dias contados. A medicina veterinária baseada em evidências mostra que o tratamento caseiro, além de ineficaz, pode ser desastroso.
1. O Risco da Ototoxicidade
Estudos recentes, incluindo diretrizes da Universidade de Melbourne, são categóricos ao afirmar que certos antibióticos comuns, como polimixina B e aminoglicosídeos (gentamicina, neomicina), são ototóxicos. Se o tímpano do animal estiver perfurado (algo que o tutor não consegue ver a olho nu), o uso dessas substâncias pode causar surdez irreversível .
Recomendação de especialistas: Produtos contendo polimixina B são contraindicados se houver suspeita de perfuração da membrana timpânica .
2. Limpeza Profissional e Miringotomia
O passo inicial para o tratamento eficaz da otite média não é a medicação, mas a limpeza. No consultório, sob anestesia geral, os veterinários realizam a lavagem do canal auditivo. Se o tímpano estiver intacto mas houver suspeita de infecção no interior, realiza-se a miringotomia (uma pequena incisão cirúrgica no tímpano) para drenar o pus e coletar material para cultura bacteriana .
Após a drenagem, o ouvido médio é lavado com soluções estéreis (como soro fisiológico 0,9% ou Tris-EDTA) para remover biofilmes bacterianos, que são estruturas que protegem os germes contra antibióticos .
3. A Revolução do Ozônio Medicinal
Em um estudo inovador publicado em fevereiro de 2026 no The Veterinary Journal, pesquisadores turcos testaram a insuflação de ozônio medicinal no canal auditivo de cães. Os resultados foram surpreendentes: enquanto o tratamento convencional com antibióticos teve sucesso em 33% dos casos, a terapia com ozônio alcançou 100% de sucesso clínico, eliminando até mesmo bactérias multirresistentes como Acinetobacter baumannii .
A terapia com ozônio funciona como um potente oxidante, destruindo as paredes celulares de bactérias e fungos sem contribuir para a resistência antimicrobiana, um problema crescente na medicina veterinária .
A Prevenção é a Melhor Cirurgia
A cronificação da otite leva a alterações irreversíveis: estenose (estreitamento do canal), mineralização da cartilagem e hiperplasia glandular. Quando o canal auditivo se torna um “tubo ossificado” e a dor é constante, a solução final pode ser cirúrgica — a ablação do conduto auditivo (remoção total do canal), procedimento que, embora elimine a infecção, resulta em surdez definitiva .
“Manter a higiene das orelhas dos pets é fundamental, mas não basta apenas limpar”, explicam os protocolos da Universidade de Melbourne. É essencial tratar a causa primária. Se o animal tem alergia atópica ou alimentar, a otite externa vai voltar repetidamente enquanto a alergia não for controlada com dieta ou imunoterapia .
A dor de ouvido em cães e gatos é um problema sério, multifatorial e que requer intervenção veterinária precoce. O avanço das pesquisas em 2025 e 2026 mostra um caminho promissor com o uso de ozônio e novas formulações, mas o fator mais importante continua sendo a conscientização do tutor.
Se o seu pet balança a cabeça, coça a orelha com frequência ou apresenta sensibilidade ao toque, não ignore. Uma consulta a tempo pode salvar não apenas a audição do animal, mas também evitar meses de tratamento doloroso e custoso.

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