CUIDADO COM A "QUICK": OS PERIGOS OCULTOS NO CORTE DAS UNHAS DO SEU PET

 


CUIDADO COM A "QUICK": OS PERIGOS OCULTOS NO CORTE DAS UNHAS DO SEU PET



Estudos revelam que 80% dos profissionais já se feriram durante o procedimento; especialistas alertam para riscos de infecções ósseas e traumas psicológicos irreversíveis












O que deveria ser um procedimento simples de rotina pode se transformar em um pesadelo veterinário. Um gesto de milímetros a mais com o cortador de unhas é suficiente para atingir uma região chamada "quick" — ou sabugo —, causando dor intensa, sangramento e, em casos graves, infecções que podem comprometer o osso do animal.

Apesar da aparente simplicidade, o corte de unhas em cães e gatos é uma das tarefas mais temidas e subestimadas no universo dos cuidados pet. Uma pesquisa publicada em janeiro de 2026 no periódico Veterinary Sciences revelou que 79,8% dos profissionais da área veterinária já foram feridos durante o procedimento, sendo que aqueles com atitude negativa em relação ao corte tinham 5,5 vezes mais chances de se machucar.

Os dados acendem um alerta: se até os especialistas enfrentam dificuldades, os tutores que realizam o procedimento em casa correm riscos ainda maiores.
A Anatomia do Perigo: Por Dentro da Unha

Para compreender o risco, é necessário entender a anatomia da garra de cães e gados. Ao contrário do que muitos pensam, a unha dos pets não é um bloco homogêneo de material morto.

A estrutura é composta por duas partes principais

O Keratin (estojo córneo): É a camada externa, dura e visível da unha. Como o cabelo humano, essa parte não possui terminações nervosas. É a única porção que deve ser cortada.


A Quick (sabugo): Localizada no interior da unha, é um feixe vivo de vasos sanguíneos e terminações nervosas. É a parte que garante sensibilidade e nutrição para a unha.

A médica-veterinária Dra. Lynn Buzhardt, do VCA Canada Animal Hospitals, explica a gravidade do dano: "A 'quick' está ligada diretamente ao osso do dedo. Qualquer dano à 'quick' pode levar a uma infecção no osso, o que é muito grave". Uma infecção óssea (osteomielite) requer tratamentos agressivos com antibióticos específicos e, em casos extremos, pode levar à amputação do dígito.




O problema é agravado pela dificuldade de visualização. Em unhas claras ou brancas, a região rosada da "quick" é visível a olho nu. No entanto, em unhas escuras ou pretas — comuns em raças como Labradores, Schnauzers e Poodles — o sabugo é invisível, tornando o corte caseiro uma verdadeira "aposta" com a saúde do anima.


Estatísticas Alarmantes: O Corte Como Emergência Veterinária

Longe de ser um evento raro, o acidente com unhas é uma das principais causas de idas não programadas ao veterinário.

Um estudo epidemiológico abrangente publicado em agosto de 2025 no Journal of Small Animal Practice, que analisou dados de mais de 2,2 milhões de cães no Reino Unido, revelou que o corte de unhas foi o motivo principal da consulta veterinária em 59,4% dos casos registrados.

Entre as justificativas clínicas para a necessidade do procedimento estavam:

Unhas encravadas ou excessivamente crescidas (12,66%).


Unhas quebradas ou fraturadas (8,84%) .

Os pesquisadores identificaram que algumas raças têm uma predisposição muito maior para precisar de cuidados intensivos com as unhas. Chihuahuas apresentaram 2,21 vezes mais chances de precisar de corte veterinário em comparação com SRDs (Sem Raça Definida), seguidos por Beagles (2,09 vezes) e Greyhounds (2,02 vezes).

A explicação para essa variação racial pode estar na conformação física, no nível de atividade diária (cães mais sedentários desgastam menos as unhas naturalmente no asfalto) e até na genética da queratina.

Quando o "Corte Errado" Vira Trauma Psicológico




As consequências de um corte malfeito vão muito além da dor física. Especialistas em comportamento animal alertam para a Síndrome do Estresse Veterinário.

Segundo a pesquisa australiana de 2026, 72,4% dos cães e 59% dos gatos exibem sinais significativos de medo, ansiedade e estresse (FAS) durante o corte de unhas.

Para o pet, a dor súbita do corte na "quick" cria uma associação negativa fortíssima. O animal não diferencia o erro acidental do tutor da intenção de cuidar. Ele aprende que:

A tesoura ou o cortador se aproximam.


Uma dor aguda e sangramento acontecem.


 O objeto e a aproximação são perigosos.

Isso pode levar ao que os veterinários chamam de "aversão à contenção". O pet que antes tolerava ser segurado pelas patas pode passar a rosnar, tentar fugir ou até mesmo morder ao ver um cortador de unhas, tornando procedimentos médicos futuros (como verificar a temperatura ou examinar ferimentos) extremamente estressantes.

O estudo destaca que os profissionais sentem "pressão para perseverar no corte de unhas mesmo quando desnecessário ou quando os animais apresentam estresse severo". Essa pressão, quando aplicada em casa pelo tutor que "não quer deixar a unha pela metade", pode quebrar a confiança entre o dono e o animal por anos.

O Que Fazer em Caso de Acidente

Se o tutor acidentalmente atingir a "quick" e iniciar um sangramento, a rapidez na ação é essencial. Especialistas do VCA orientam o seguinte protocolo de primeiros socorros:

Controle do Sangramento: Enrole a pata em uma gaze ou toalha limpa e aplique pressão direta no local por 5 a 10 minutos.


Agentes Hemostáticos: Se o sangue não parar, utilize produtos específicos como pó hemostático (vendido em pet shops) ou bastão adstringente (encontrado em farmácias humanas na seção de barbear).


Soluções Caseiras (Emergência): Na falta dos produtos acima, farinha de trigo ou amido de milho podem ajudar a estancar o sangue. Outra técnica é pressionar a ponta da unha contra um pedaço de sabão seco, formando uma barreira.


Proteção: Se houver um fragmento de unha solto, não puxe. Isso pode arrancar o sabugo restante. O ideal é envolver a pata em uma toalha e seguir para o veterinário.

O Dr. Malcolm Weir ressalta: "A remoção da parte danificada da unha geralmente deve ser feita pelo veterinário. Embora o procedimento seja rápido, dependendo da dor e do local da fratura, pode ser necessária sedação ou um bloqueio de nervo".
A Abordagem Profissional: Menos Estresse, Mais Segurança




Os estudos recentes sugerem uma mudança de paradigma: o corte de unhas não deve ser uma "luta corporal".

A pesquisa de 2026 aponta soluções práticas que reduzem drasticamente os riscos tanto para o animal quanto para o tutor:

Dessensibilização: Antes de cortar, acostume o pet ao barulho do cortador e ao manuseio das patas, oferecendo petiscos. Isso reduz o estresse prévio.


Uso de Farmacologia: Para animais extremamente ansiosos, o estudo mostrou que o uso de medicação pré-consulta e sedação leve reduz efetivamente o medo e a ansiedade, permitindo um corte seguro e sem traumas.


Ferramentas Adequadas: Cortadores afiados e específicos para o porte do animal (guilhotina para médios/grandes, alicate para pequenos) são essenciais. Cortadores cegos "trituram" a unha, aumentando a chance de lascas e fraturas.

A conclusão dos pesquisadores do VetCompass é inequívoca: "O corte de unhas deve ser priorizado na educação veterinária e nas estratégias de cuidado, devido à sua alta frequência e implicações clínicas e de bem-estar".

Para o tutor que não possui segurança na técnica, especialmente em raças de unhas escuras ou animais muito agitados, a orientação dos especialistas é clara: deixe o procedimento a cargo de um profissional. O custo de uma consulta de rotina para corte de unhas é infinitamente menor do que o tratamento de uma infecção óssea ou a despesa emocional de lidar com um animal traumatizado e com medo de seus próprios donos.


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